Nove em cada 10 latinhas de alumínio são recicladas no Brasil, país onde o material é mais reaproveitado em todo o mundo. Por aqui, recicla-se mais o metal do que todos os países da Europa Ocidental somados – incluindo nações como Inglaterra, Portugal e Áustria, onde metade das latinhas são recicladas.
Em São Paulo, a Praça da República é um dos locais onde se encontra artesanato com latinhas de alumínio, ainda que a maioria das peças não vá além do banal. Ainda que pareça quase impossível fazer algo com latinhas que não seja um porta-lápis ou uma bolsinha de lacres, existem artesãos fazendo verdadeiras obras de arte usando esse metal tão nobre.
Engana-se quem acredita que só um designer ou artista plástico é capaz de produzir arte de qualidade usando sucatas metálicas. Basta uma olhada no trabalho de Jonas para se ter uma ideia de como a criatividade não exige diploma universitário.
Andarilho semi-analfabeto, Jonas usa latinhas de cerveja e refrigerante e fios de circuito elétrico para fazer milhares de sofisticadas esculturas: carroças com rodas e cavalos articulados, naves espaciais cheias de botõezinhos, super-heróis de 2 metros de altura. Depois de ter suas ferramentas de trabalho constantemente roubadas, usa apenas uma tesourinha de unhas de bebê para cortar o alumínio, que não recebe nenhum acabamento. Algumas de suas obras podem ser adquiridas na loja O Design Animado, em São Paulo.
*Post originalmente publicado no blog Retribua.
No ventre da baleia
Jonas quer ser uma baleia. “Ela não é presa de ninguém, não mata nenhum bicho, não precisa de sangue. Tubarão não chega nem perto.” Ele se cala e mergulha num trabalho silencioso. Suas mãos seguram com destreza uma tesourinha de unha onde mal passam seus dedos, feridos pela lida diária com o metal. Está entretido em transformar uma latinha de Skol num pedaço de alumínio de dois centímetros, parte da reluzente armadura de São Jorge.
Jonas Santos Francisco de Camargo, 29, é um homem alto, esquálido e de poucas palavras. Foi abandonado pela mãe aos 6 anos, começou a fumar aos 7 e a beber aos 9. Levou uma vida de andarilho, mudando de cidade assim que acabava o trabalho nas oficinas mecânicas. Viveu entre soldas, fios e latas de graxa até o dia em que seu pai passou a fazer velas artesanais usando latinhas de refrigerante como fôrmas. Jonas olhava preocupado para a pilha de alumínio descartado tão logo a parafina secava. Não pensava em reciclagem, meio ambiente, calota polar. Não pensava nas baleias. Queria algo que pudesse vender para pagar uma refeição, um produto que fosse resistente e agüentasse ficar sob sol, chuva ou vento – como Jonas. Começou a fazer carrinhos e bonecos com o alumínio das latinhas.
Hoje, três anos depois, seu trabalho continua exigindo a mesma dedicação de antes: as partes são recortadas com uma tesourinha e modeladas com ferramentas muito rudimentares que ele mesmo criou. Das mãos calejadas do artesão saem miniaturas de porsches, fósseis de tiranossauros, diligências, motos, samurais, foguetes, roqueiros, motos, santos. Baleias. Jonas é capaz de produzir qualquer coisa que possa observar por uns vinte minutos. Foi assim com um submarino que atracou na praia. Já a encomenda de “O Nascimento de Vênus”, de Botticelli, lhe abriu as portas para o mundo da proporção grega. “É tudo medidinho, né? Vi num livro.”
É nesse ponto que aparecem os irmãos Airton e Marcia Grenci. O artista plástico Airton levou o computador a uma assistência técnica em Mongaguá (SP) e, enquanto esperava ser atendido, reparou num homenzinho feito de latinhas que estava sobre o balcão. O dono da loja comentou que guardava peças de computador para um andarilho. Airton quis conhecer o autor do trabalho e, naquele momento, quando artista plástico e artesão se encontraram, surgiu uma grande idéia.
O Design Animado vende peças de fornecedores preocupados com reciclagem, reutilização, camada de ozônio. Gente como Airton e Marcia, que se interessa pelo destino das baleias. Ao tomarem conhecimento de que Jonas morava na rua, os irmãos Grenci alugaram uma quitinete para o rapaz e seu pai – que, em menos de um mês, devolveram as chaves. “Me senti preso.” Airton e Marcia insistiram e, por fim, conseguiram convencê-los a morar numa barraca de camping na rua. Pelo menos, diminuiriam os roubos de ferramentas.
Hoje, as prateleiras do Design Animado estão repletas de peças de Jonas. Da vitrine, é possível ver um Homem-Aranha em tamanho natural – 800 latinhas de alumínio a menos nos aterros da cidade. Nossa Senhora acompanhada por dois anjinhos é uma das peças mais populares. E os heróis de quadrinhos, claro, com quem Jonas treinou as primeiras letras e rebeldias; mas não só eles, também Dom Quixote e Sancho Pança, São Jorge e seu cavalo, robôs.
As peças custam R$ 30 em média, o suficiente para Jonas sair das ruas e sustentar a mulher Adriana e o filho Joade, de 11 meses. “Ele já brinca com minhas ferramentas; outro dia, estava com um alicate na boca”, diz o pai, orgulhoso.
Jonas termina o São Jorge quando uma cliente vem cumprimenta-lo pelo trabalho. “Adoro suas peças!” O rapaz faz um aceno com a cabeça. A moça vai embora. Jonas baixa os olhos, pega a tesourinha, procura uma latinha e volta para seu mundo abissal.

Em sentido horário: Homem-Aranha, nave espacial, diligência, Homem-Pássaro, Jonas com uma de suas peças, 14-Bis e anjo
PS: Essa matéria pode ser lida na íntegra na Carta Capital desta semana.
PS do PS: Prometi ajudar o Jonas a divulgar seu trabalho. Quem estiver interessado em conhecer suas peças pode dar uma passada no Design Animado (r. Fidalga, 182, Vila Madalena, São Paulo) ou ligar lá: (11) 3815-6841
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Leia este post no blog Guindaste: Muito além das latinhas de alumínio*
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